Ketu Desapego e Salvação

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Na mitologia Ketu é a «cauda» do dragão, que ficou separada da cabeça, cortada após a transgressão de Rahu em relação às regras dos deuses. Assim, Ketu está relacionado com as experiências de separação, corte, dispersão, com todos os processos de desligamento e de rutura com seres, experiências, objetos, etc. Tal como Rahu, Ketu não tem corpo físico, a sua realidade é  etérea e  psíquica e a sua energia, embora não visível,  é poderosa.

Ketu é a  consciência não focada, é o vaguear desinteressado, apático, sem direção e sem objetivo, inerte, perdido, ao abandono. Representa a desestruturação das formas e dos significados, a perceção de ausência de sentido e de motivação, o vazio que testemunha mas não toma verdadeiramente parte nos eventos ou nas experiências. Ao contrário da Lua, que procura firmar-se e estabelecer-se, Ketu nunca se adapta, mantém-se invisível e pertencente a um plano fantasmagórico e não físico.

Nos eventos, Ketu tem efeitos de dissecação e de pulverização das formas, desmembra, corta, descarta, decapita, dissolve. Há deste modo uma experiência generalizada de dissolução em tudo o que Ketu toca no horóscopo. A ausência de cabeça faz com que não exista atividade consciente ou pensante, havendo assim uma clara desumanização pois a mente está ausente da natureza de Ketu, restando apenas uma apatia nebulosa e fantasmagórica de desordem, formas soltas e irracionais que tiveram vida no passado mas que agora apenas permanecem numa espécie de vácuo fantasmagórico, sem vida mas ainda com energia suficiente para «assombrar» a vida presente.

Na personalidade , a energia de Ketu desliga a pessoa de uma identidade fixa e retira-lhe a força/motivação para se envolver no que quer que seja, incluindo  o desejo de  garantir a sobrevivência, de  ascender a uma posição social ou profissional elevada, e também incapaz de criar raízes em qualquer lugar. Ketu é personificado pelo vagabundo, «sem-abrigo», que nada tem nem se apega a nada, não tendo nada de seu.

No desenvolvimento espiritual, no entanto, Ketu representa um papel importantíssimo, embora muitas vezes difícil  para a maioria dos individuos: em cada período, tanto no  dasa como antardasa, Ketu obriga a pessoa a cortar ou separar-se de algo, um ser, uma experiência, um afeto ou apego, que já não são necessários  para o seu crescimento e, pelo contrário, impedem esse crescimento pleno. Na existência finita dos seres humanos, não há nada que dure para sempre. No entanto, a força do desejo e das emoções pode ser muito poderosa e a sua energia tende a permanecer, invisível, formando uma prisão interior que não permite à pessoa libertar-se facilmente. É função de Ketu dispersar essas energias e impulsionar a pessoa, «a bem ou a mal» a libertar-se e a seguir em frente. Enquanto essa libertação (em relação a seres, objetos, experiências etc.) não ocorrer, o indivíduo está preso, rodando viciosamente sobre si mesmo , encalhado, desligado da sua vida real.

Nos períodos de Ketu ocorre a libertação de tudo o que, em termos kármicos, está destinado: tanto as experiências atrás referidas como até mesmo partes do corpo- um membro, cabelo, dentes, um órgão, etc., tudo o que perdeu vitalidade na vida presente e não faz falta à pessoa para crescer, é agora separado da sua vida. Ketu é corregente da 8ª casa, com o planeta Marte e os seus processos são, tais como os da 8ª casa, processos de transformação. São traumáticos muitas vezes porque não dependem da aceitação da pessoa, ocorrem sem aviso e sem apelo porque a causalidade geral assim o determina.

O destino humano é, em grande parte, moldado pelos relacionamentos com os outros e pelos afetos. Isto tem tanto de extraordinário no sentido positivo- pois permite vivenciar a felicidade e o amor em diversas formas – como de negativo, pois é também ao nível dos afetos e dos relacionamentos que o ser humano experimenta os maiores sofrimentos e cria limitações que impedem o seu crescimento. Tais processos são, pois, essenciais ao crescimento e desenvolvimento espiritual. Mas tudo isso gera um «lixo» a nível psíquico e da memória genética espiritual de que é preciso libertar-se periodicamente.   É essa a função de Ketu ,  que separa , corta, dissolve, para rejuvenescer a pessoa e as suas possibilidades, fazendo na verdade surgir novas possibilidades que só existem porque os condicionamentos do passado foram superados.

A lição de Ketu é a de que não há formas, seres ou experiências que sejam absolutas ou eternas neste plano de existência; e se tentamos «eternizá-las» pelo facto de nos agarrarmos a elas de forma repetida e contínua, porque isso nos dá segurança e/ou conforto emocional, Ketu tem que nos obrigar a «abrir mão delas» e separa-nos súbita e irrevogavelmente delas. Nos relacionamentos, Ketu segue um processo de «dois passos»: primeiro, pode haver uma ligação intensa, alimentada pela memória passada que emerge de súbito no presente, seguida por desapontamento, na fase dois, desilusão e perceção de contradições internas. Este último processo permite a tomada de consciência de que a ligação era uma ilusão, não era real, era um fantasma seco e sem vida. O desejo inicial de Ketu nunca pode ser concretizado porque, simbolicamente, isso implicaria a união com a «cabeça que lhe falta», Rahu. Ora, Rahu não deseja ligar-se a Ketu, embora este deseje essa união. Mas o seu destino é permanecerem opostos, cada um desempenha papéis opostos  que são eficazes justamente porque ambos, Rahu e Ketu, permanecem separados.  Este dualismo de Ketu faz com que, muitas vezes, a pessoa deseje e não deseje a experiência que estiver sob a  sua influência. E esta natureza ambígua e nebulosa  não pode ser superada. Daí a inerte apatia para que tende Ketu. E as lições de Ketu nos seus trânsitos e períodos (dasa e antardasa)  estão sempre relacionadas com a necessidade aprender que «nada é permanente nem eterno neste mundo de ilusão».

Algumas palavras -chave dos efeitos de Ketu nos seus períodos e trânsitos são: insatisfação (Ketu muitas vezes faz sentir uma completa falta de esperança), distanciamento, desapego, desvalorização, desespero, resignação, rendição por não ter força para se opor aos obstáculos, incapaz de se ligar completamente a algo mas também de se desligar completamente. Nos seus períodos, Ketu pode fazer sentir impotência para manter os laços com tudo no mundo material: emprego, casa, relacionamentos, sustento. Mas, quando é forte no horóscopo  torna a pessoa extraordinariamente sensitiva a nível psíquico, abrindo as faculdades psíquicas. Os que têm uma natureza espiritual aberta à Luz, poderão sentir empatia profunda com a totalidade cósmica; caso tenham dificuldade em libertar-se do plano material e das suas ilusões, os períodos de Ketu podem ser períodos de caos, desespero ou solidão. De uma forma ou de outra, Ketu pode ajudar a  ter uma visão mais real do conjunto do ser, cortadas as ligações que mantinham  vivas as ilusões. Tal como acontece no mito  sobre Rahu e Ketu, em que a  impulsividade de Rahu levou à decapitação que o separou de  Ketu, os períodos de Ketu podem trazer experiências «fora do corpo» e permitir sonhos lúcidos, experiências de tipo mediúnico, etc.

Deste modo, as únicas ações que Ketu pode gerar são ações também negativas: separa a alma do corpo (morte), separa pessoas que estavam unidas, membros do corpo que estavam unidos a este, causa perdas como perda de dignidade, de posição social, etc. Tal como Rahu, Ketu também simboliza ir além dos limites e regras estabelecidos, com total desconsideração por estes.

A ação de Ketu é no entanto passiva ele é uma testemunha, não uma força ativa de desenvolvimento  pois não tem quaisquer desejos que sirvam de  energia para concretizar alguma ação. Os seus efeitos são negativos- separa, corta, dissolve, etc.- mas não volta a unir. É Rahu que exprime a força do desejo, não Ketu. A sua  natureza fundamental é permitir a «salvação», o total abandono do sofrimento no plano terreno. Ketu produz excelentes resultados no plano espiritual e místico, sendo um auxiliar fundamental de todo o desenvolvimento espiritual. Não tem poder de discriminação porque não possui mente, deste modo, não é capaz de lidar com as categorias racionais acerca da realidade , a sua apreensão é psíquica e passiva nesse plano. Não reconhece quaisquer limites físicos, emocionais, sociais, etc. e não pode desse modo ajudar a melhorar nenhuma área da vida material. O seu objetivo máximo é «dar um empurrão» no avanço espiritual de cada um, destruindo todos os obstáculos que se opõem a esse avanço- um dos quais é precisamente a mente racional que liga o indivíduo a uma perceção limitada do «eu» e das suas «posses» neste plano material. Tal como alguns sistemas de sabedoria oriental têm mostrado, é preciso «nada querer», criar um desapego total e uma renúncia em relação ao mundo para poder aspirar à «salvação final». É esse basicamente o objetivo de Ketu  em termos universais.

Nas experiências do mundo material, Ketu pode ter como efeito instabilidade mental, gera situações difíceis na vida, perturba os relacionamentos pessoais e sociais, embora os seus efeitos sejam principalmente efeitos no plano psicológico, e não no plano material; simplesmente, porque esses efeitos se refletem no plano material,  acabam por ter efeitos indiretos nele. Pode  também causar situações de humilhação que serão seguidas de aumento da resistência individual e posterior retorno do reconhecimento por parte dos outros.

Para analisar os efeitos de Ketu no horóscopo damos primazia à casa onde está colocado e, secundariamente ao signo. Em relação a este temos em conta ainda o planeta que rege o signo de colocação de Ketu e os significados deste no horóscopo e quaisquer planetas que ocupem a mesma casa de Ketu. Ketu produz efeitos a partir do planeta regente do signo onde está colocado e de quaisquer planetas colocados no mesmo signo. Qualquer planeta sólido colocado em conjunção com Ketu influencia decisivamente essa casa e Ketu dará efeitos de acordo com esse planeta.

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