Glossário Astrológico- Anartha

Anartha capa

Os estudantes de Astrologia Jyotish estão familiarizados com a palavra Artha que corresponde a um dos quatro objetivos da existência terrena e que está associado com a acumulação de riqueza e de bens materiais. Também significa «aquilo que é necessário» para suportar as condições da existência terrena. O conceito de Artha está, portanto, ligado ao do percurso da alma quando esta está encarnada num corpo e associada a uma personalidade e destino específico na Terra.

Ora, o conceito de Anartha estabelece, por oposição ao referido atrás, «aquilo que não é necessário» ou seja, este conceito vai mais além da existência terrena e tem em conta o percurso global da alma em ligação com o fluxo universal do ser, não apenas no período de tempo que designamos por  «vida» mas  no contexto das conceções védicas de que a alma encarna muitas vezes no seu processo de aperfeiçoamento. Assim,  o conceito de Anartha refere-se ao  percurso da alma que vai para além da satisfação  das necessidades da vida material  e tem em conta os objetivos últimos do aperfeiçoamento da alma. Nesta medida, refere-se à necessidade de tomar consciência de que o ser de cada personalidade viva sobre a Terra não se reduz a esta existência apenas mas tem um passado de muitas vidas e um futuro de aperfeiçoamento consoante as intenções e as ações realizadas em cada vida bem como  com as lições aprendidas nesse processo. (Karma).

É assim que o conceito de Anartha  se associa a um outro, o de Nivrtii, formando a expressão Anartha – Nivrtii  relacionado com a devoção a Lord Krishna e pelo qual, segundo o Hinduísmo, cada pessoa se pode libertar de todos os apegos desnecessários para o aperfeiçoamento da alma e, dessa forma, atingir a «salvação» ou libertação final da «roda de samsara». Esta refere-se ao ciclo de morte e renascimento para o qual a alma é atraída no desejo de experimentar e vivenciar os prazeres do mundo físico e através do qual vai gerando «karma» pelas boas e más ações realizadas. Ao mergulhar na «roda de Samsara» a alma é levada a confundir a realidade com o plano sensível e as lutas e alegrias que este proporciona, sem se aperceber de que este é apenas um meio temporário de desenvolvimento do verdadeiro ser, que é a alma divina presente no âmago de todos os seres. Esta «cegueira espiritual impede que a pessoa tenha consciência do seu verdadeiro ser  e identidade  espiritual (Atma) e prende cada vez mais a alma ao ciclo das reincarnações.

Na Filosofia Védica que subjaz ao contexto da Astrologia Jyotish (que quer dizer, lembremo-lo, «Ciência da Luz») estes conceitos estão implicitamente presentes pois o objetivo deste saber, segundo os antigos mestres que o implementaram, era não apenas o de «prever o futuro» mas dar a conhecer a matriz do destino individual de cada um para que este, a partir daí , pudesse tomar consciência do verdadeiro propósito da sua existência e usar esse conhecimento para alcançar maior perfeição da Alma.

É assim neste contexto filosófico de evolução espiritual que surge o conceito de «Anartha» que enumera e inclui todas as «necessidades» criadas pela ilusão da vida terrena mas que são desnecessárias  a longo prazo no processo  espiritual de evolução da alma.

Mais ainda, Anartha é o conjunto de todas as «necessidades» ilusórias que cegam o ser humano e desviam a sua atenção da sua verdade mais profunda, que é a do ser espiritual que está no seu âmago e que contribuem para o prender a um mundo de ilusão, bloqueando o seu percurso espiritual. Anartha designa assim todo o conjunto de apegos e desejos que  bloqueiam o desenvolvimento espiritual do ser humano e o prendem ao mundo materialista e às suas necessidades ilusórias.

Muitas das coisas consideradas «Anartha» acompanham  cada personalidade  no ciclo de existências terrenas, podendo ter sido originadas  há muitas vidas atrás, e tendo sido alimentadas pelos desejos dessa personalidade, sendo  assim necessário um esforço considerável para que surja  a consciência de que não são realmente necessárias e, pelo contrário, são mesmo obstáculos ao desenvolvimento pessoal. O Anartha – Nivrtii corresponde então ao percurso de regresso à espiritualidade original e ao desapego em relação a todas as falsas necessidades criadas pelo ego humano material. Segundo este conceito, o discípulo ou candidato à vida espiritual deve identificar-se com a consciência de Lorde Krishna (ou, como poderíamos também dizer, deve identificar-se com o  «Eu divino» no seu  próprio âmago, ou «mestre interior» ou «Cristo Interno» conforme as correntes místicas que, apesar de origens diferentes, têm conceitos muito semelhantes a este respeito).

Através desta via, considera-se que «a alma regressa ao seu lar original» que é o plano espiritual, do qual a vida terrena é apenas um episódio finito intermédio e nunca um fim em si mesma.

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