Glossário Astrológico- Ashtakoota

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Ashtakoota é um sistema pelo qual se determina a compatibilidade entre duas pessoas; em geral aplica-se às que desejam casar, avaliando a compatibilidade em vários níveis do relacionamento.  Países como a índia, em que a Astrologia Védica está fortemente implantada, têm uma larga tradição de «casamentos arranjados» recorrendo-se a uma consulta astrológica na qual este teste é efetuado. Este sistema examina oito tipos de fatores: Varna, Vashya, Dina ou Tara, yoni, Graha Matri. Gana, Rasi, Nadi. Dessa análise resulta a atribuição de um resultado numérico cujo máximo são 36 pontos.

Varna refere-se ao desenvolvimento espiritual dos parceiros;

Vashya analisa o grau de influência do parceiro;

Dina ou Tara examina o número de Nakshatras entre as Luas dos parceiros;

Yoni analisa a compatibilidade sexual entre os parceiros;

Graha Maitri  refere-se à compatibilidade mental para medir o grau de amizade potencial entre os parceiros;

Gana refere-se ao temperamento de cada um dos parceiros, sendo considerado que o mesmo temperamento é preferível;

Rashi  refere-se ao exame da relação entre os Nakshstras  da Lua de ambos os parceiros e à sua compatibilidade mútua.

Nadi refere-se à capacidade de ambos os parceiros poderem gerar filhos.

Em termos gerais, este teste de compatibilidade abarca as qualidades que se considera deverem existir para que um casamento seja bem –sucedido tendo em conta que este se realiza no momento em que o nativo pensa constituir a sua família (juventude).

Antes de examinar estes oito fatores, os astrólogos veem a longevidade dos parceiros, a sua saúde mental, se há configurações maléficas. Só depois examinam a compatibilidade lunar referida.

Este exame tem a reputação de ser «científico» na cultura da índia e foi defendido por grandes investigadores como B. V. Raman mas hoje em dia  há vozes que se erguem contra o seu peso na determinação da compatibilidade para casar. Os testes referidos, acrescentamos nós, baseiam-se num modelo de sociedade em que o homem tem posição  dominante e a mulher tem um papel subalterno (e submisso) e isso é bem visível na forma como os resultados quantitativos são calculados nestes testes. Mas a mudança das sociedades , que também se reflete na Índia, tem cada vez mais colocado alguns limites ao uso deste tipo de testes, afirmando-se cada vez mais que  este á apenas um entre outros métodos  de analisar a compatibilidade entre parceiros. A nós, que vivemos uma cultura em que o casamento é uma instituição importante mas admite a  igualdade legal e social entre os cônjuges, cujo casamento raramente é «arranjado», este tipo de teste parece fora de tempo. Porém, os fatores que ele abrange continuam, na nossa opinião, a  ser pertinentes num relacionamento de longa duração. Mas o método de calcular os seus resultados parece-nos totalmente desatualizado e desadequado aos tempos que vivemos. É claro que a análise negativa que na índia se faz sobre a organização do casamento no Ocidente, e os chamados «casamentos por amor» é também uma perspetiva pertinente, pois é verdade que muitos dos casamentos no Ocidente terminam em divórcio. Mas isso é também, a nosso ver, sinal da liberdade dos indivíduos que preferem terminar um casamento infeliz do que aguentá-lo toda a vida em nome das aparências ou da simples observância formal das tradições. E não há «teste científico» que resista pois o indivíduo e a sua matriz astrológica não são fixos, evoluem e mudam  através do tempo e não há análise  do horóscopo que possa prever todas as mudanças que irão ocorrer na vida , na mente e na psique de cada um.

Glossário Astrológico- Angular

Angular capa O termo «angular» tem várias aplicações em Astrologia. Por exemplo, um «ângulo» do horóscopo refere-se a uma das 4 casas angulares  também designadas por Kendra–  as casas 1, 4, 7, 10. As casas angulares são consideradas a estrutura básica que sustenta o horóscopo ou o seu «esqueleto». A discussão permanece entre os estudiosos e astrólogos sobre se são as casas kendra ou as trikona – 1, 5, 9- que são as mais auspiciosas. Mas, na determinação dos eventos fundamentais da existência as casas angulares estão em geral sempre envolvidas de uma forma ou de outra, seja por trânsito de planetas importantes, seja  pela ativação do período dasa/antardasa dos seus regentes. Angular também se diz da distância entre dois pontos ou planetas do horóscopo, referindo-se ao arco  da distância em graus que separa esses dois planetas ou pontos.  O Zodíaco é um contínuo de 360º e todos os elementos no contexto do Zodíaco mantém um certo tipo de relação referente à distância entre um e outro, medida em graus e minutos. Essa distância determina tipos de influência  e de força dessa influência que estão tipificados nos chamados «aspetos». Estes são mais ou menos relevantes de acordo com o «ângulo» de distância entre eles. A distância angular entre os planetas pode ser medida de forma estática, quando consideramos por ex., o momento do nascimento e a posição de todos os elementos do Zodíaco nesse momento e num certo local em que se deu o nascimento; ou de forma dinâmica, como quando observamos a relação entre planetas que estão a mover-se (trânsitos) e os ângulos que formam em relação uns aos outros. Observamos ainda a angularidade que os planetas em trânsito (incluindo os regentes do período dasa/antardasa) formam em relação por ex., à posição que tinham no nascimento e outros pontos importantes do horóscopo. Também se fala da distância angular de um planeta, referindo-se este conceito à distância  em graus e minutos que um planeta percorre durante um dia no Zodíaco separando-se deste modo de um certo ponto para ocupar outro. Esta distância angular não é sempre  a mesma devido ao fenómeno de retrogradação dos planetas e outros fatores astronómicos. Apenas a Lua e o Sol nunca ficam retrógrados sendo em geral  a distância angular  do Sol de 1º e a da Lua uma média de 12,5º o que faz com que o sol esteja num signo cerca de um mês e a Lua leve cerca de 28 dias a transitar um signo. Já Marte leva cerca de 49 dias, Mercúrio e Vénus demoram cerca de um mês , Júpiter demora cerca de um ano, Saturno dois anos e meio, Rahu e Ketu um ano e meio.  Estes são tempos médios, havendo alterações deste tempo médio em certos momentos, devido  aos fenómenos referidos. A distância  angular de um planeta é  um dos aspetos mais essenciais para se poderem fazer previsões, tanto a nível da Astrologia horária (Prashna)  como a longo e a médio termo. A consulta das «Efemérides» que apresentam as movimentações diárias dos planetas pelo Zodíaco é essencial para saber qual é a distância angular de um planeta num cero momento e o cálculo dos pontos do horizonte  e do meridiano são igualmente fundamentais para podermos situar no tempo a influência causada por essa distância angular e observar como ela atinge o horóscopo num certo ponto do espaço terrestre.

Glossário Astrológico- Aplicação

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Este conceito refere-se ao movimento de um planeta mais rápido quando se aproxima de outro planeta, casa ou ponto sensível do horóscopo e começa a formar uma conjunção com este ponto.  Este movimento tem uma importância acrescida na interpretação do impacto dos trânsitos, das conjunções e dos efeitos gerais dos planetas no horóscopo. Um planeta que está a aplicar-se a um certo ponto sensível do horóscopo, por exemplo no momento do nascimento, apenas fará sentir os seus efeitos de forma completa algum tempo depois, dependendo da velocidade normal do planeta e da sua natureza, na vida da pessoa; por outro lado, quando o movimento do planeta é de separação (estes são movimentos opostos mas devem entender-se de forma complementar em relação um ao outro), significa que os seus máximos efeitos já foram produzidos e, na verdade, o planeta está já a afastar-se do ponto de  conjunção e os seus efeitos serão menos intensos na vida da pessoa , para o bem e para o mal ou poderão mesmo, em certos casos, não se fazer sentir, pelo menos de forma significativa.

Na interpretação das conjunções, na série de artigos que temos vindo a publicar, a compreensão do significado do conceito de «aplicação» é fundamental pois ela  contribui para a correta compreensão da força de um dado planeta na relação que então se forma entre dois planetas conjuntos. Em geral, o planeta que está antes do outro- colocado portanto num grau inferior – é dominante na relação pois é ele que está a formar o aspeto em causa. Esta força não é, no entanto, absoluta e depende também grandemente da análise de outros fatores como a própria natureza dos planetas e da sua dignidade mas é um primeiro ponto de análise imprescindível para julgar a força e os efeitos de uma determinada conjunção.

O movimento de aplicação dos planetas é igualmente essencial para avaliar os efeitos dos planetas por ex., em termos de tempo em que os efeitos se irão produzir, havendo várias formas de interpretar esse tempo dos eventos na vida real. É claro que o movimento de aplicação da Lua  ou de Mercúrio levará menos tempo para se produzir na vida real do que o movimento de aplicação de um planeta mais lento como Marte ou Júpiter, por ex., cujos efeitos poderão apenas fazer-se sentir na vida real na idade madura. As cartas «progredidas», muito populares na Astrologia Ocidental, mas também na Astrologia Jyotish e relativas ao retorno solar, por ex.,  podem ser um instrumento muito útil para analisar  o «tempo» em que os efeitos de uma dada conjunção se farão sentir com plenos efeitos na vida da pessoa; na Astrologia Jyotish, , são principalmente os períodos dasa/antardasa que definem o «tempo» no qual se concretizarão os efeitos significados por um determinado aspeto, casa ou planeta. E a força de um ou mais planetas envolvidos no aspeto de aplicação determina quais serão mais dominantes no destino pessoal durante esse período.

Adicionalmente ao conceito de «aplicação», pelo qual um planeta se aproxima de uma conjunção exata com um ponto, casa ou planeta no horóscopo, fala-se do «aspeto de aplicação como a aproximação, num dado momento, de  um certo ponto do horóscopo. Quando se dá a conjunção  com esse ponto, o aspeto é considerado «exato». Quando o planeta ultrapassa o grau exato da conjunção, diz-se que o aspeto é separativo ou de separação.

Falaremos posteriormente, neste glossário, do conceito de «separação», complementar deste.

Glossário Astrológico- Afinidade

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Afinidade entre planetas é um modo de relacionamento mútuo de atração entre dois  planetas , numa dinâmica de interação em que estes se atraem mutuamente para alcançar os objetivos que são significados por esses planetas.  Essa afinidade não significa no entanto que os planetas em causa coincidam em 100% nessa atração. Na verdade, tal afinidade é parcial e refere-se a algum aspeto específico. Assim, Marte e Vénus são afins no plano físico e magnético pois ambos possuem uma energia física e sensual; mas a energia de Vénus não é puramente física ou sexual ela também se refere ao refinamento trazido pela cultura, pela arte, pela atração por tudo o que é humano (incluindo os valores culturais, éticos, os direitos e a justiça, etc.) Assim, também se diz que Vénus tem afinidade com Júpiter no aspeto em que ambos mantêm o apreço pela justiça social e pela ordem cultural instaurada pelos costumes e modos de ser da sociedade humana; por outro lado, Vénus não é o único planeta que significa o amor pela arte, Mercúrio também é o significador das artes que se apoiam na voz, nos gestos do corpo (dança, mímica…), da representação teatral, da música, etc., deste modo diz-se que Vénus e Mercúrio são afins neste aspeto referente à sensibilidade estética e artística, embora cada um possa ter a sua especificidade (por ex., vénus relaciona-se com as artes plásticas como a pintura, a arquitetura, escultura, etc., Mercúrio com as artes performativas como a música, o canto, o teatro e a poesia, etc.)

O Sol é considerado como tendo afinidade com todos os planetas mas isto deve ser visto num sentido muito geral, sem esquecer de especificar os aspetos em que a energia solar não interage bem com a energia de outros planetas como é por ex., o caso de Saturno. Isso não impede que, por ex., ambos signifiquem a autoridade embora saturno seja uma energia cristalizada e materializada que aspira a conservar-se sem alterações e a energia solar seja uma energia criativa e inovadora por natureza.

Há também afinidade entre os planetas e as casas do horóscopo embora não para todos os planetas. Quando um planeta está colocado numa casa com a qual tem afinidade, a sua energia está forte  e exprime-se de forma confortável nessa casa conseguindo derrotar mais facilmente um planeta inimigo nessa casa. Conhecer a casa de afinidade de um planeta permite assim ajuizar melhor sobre os efeitos de um planeta associado a outro quando estão ambos numa certa casa e um deles tem afinidade com ela.

Nem todos os planetas têm casas de afinidade: a Lua e Vénus não têm.  A associação entre a casa de afinidade de um  planeta e a capacidade de este derrotar um planeta inimigo levou a tradição a definir uma série de padrões de relacionamento de inimizade entre planetas tendo por base as casas de afinidade dos planetas: em termos simples, diz-se que o Sol tem afinidade com a 4ª casa e é inimigo de Vénus na 4ª casa; Marte tem afinidade com a 3ª casa e é inimigo de Mercúrio na 3ª casa; por sua vez Mercúrio tem afinidade com a 12ª casa (porque usa a sua astúcia e inteligência para, secretamente, alcançar os seus objetivos escondidos) e é inimigo de Marte na 12ª casa;  Saturno tem afinidade com a 6ª casa (simboliza a servidão sob todas as formas, incluindo a servidão física e mental) e é inimigo do Sol na 6ª casa.  O curioso é que Júpiter também tem afinidade com a 6ª casa. Deste modo, se é verdade que Saturno pode derrotar Júpiter na 6ª casa, é preciso avaliar a força de ambos uma vez que Júpiter também pode derrotar Saturno na 6ª casa.  Aquilo que cada um deles significa pode, no entanto, ser bem diferente. Saturno na 6ª casa indica que o nativo trabalha arduamente sem se queixar e de forma responsável; Júpiter na 6ª casa pode significar , não apenas o dinheiro ganho de forma árdua mas o apego a causas que procuram mais justiça, respeito e consciência pelos direitos de todos os que sofrem algum tipo de opressão, etc..

A compreensão do conceito de afinidade dos planetas ajuda a obter uma perceção mais fina dos significados dos planetas e a compreender algumas das características dos próprios signos de que os planetas são regentes

Glossário Astrológico- Anga Vidya

Anga Vidya capa

O conceito de «anga vidya»  refere-se à «ciência do conhecimento das partes do corpo» ou «ciência dos membros» (do corpo) que tradicionalmente é descrito nos Vedas e  permite fazer prognósticos sobre a vida de uma pessoa e atestar o seu grau de perfeição, pela existência ou não de certas marcas no corpo chamadas rajalakshanas (marcas auspiciosas). Outras particularidades das formas e expressões do corpo têm significados específicos. Na sabedoria tradicional eram reconhecidas 6 partes principais do corpo (da divindade e do ser humano): cabeça, peito, mãos, lados ou flancos, quadris/cintura e pés. Secundariamente reconheciam-se 6 membros secundários designados por Upanga: olhos, sobrancelhas, globo ocular, nariz, mandíbulas, queixo, dentes, face, tornozelos, dedos da mão e dos pés. Também se reconheciam membros terciários ou prathyangas: omoplatas, parte de trás da cintura, braços, cotovelos,  pulsos, coxas, joelhos. barriga da perna, tornozelos. Cada divisão destas «partes» é presidida por uma divindade  ou devata. A  relação com estas divindades misturava-se com as práticas ancestrais da magia e encantamentos.

Cada tipo de movimento ou latejar de uma parte do corpo era entendido como uma indicação de eventos futuros, especialmente os dos braços e dos olhos. E ajuizava-se se esses eventos eram positivos ou negativos através da parte do corpo em que ocorriam: para os homens, os movimentos do lado direito do corpo eram auspiciosos e negativos os do lado esquerdo do corpo; para as mulheres, devido à sua polaridade oposta, é ao contrário: os movimentos do lado esquerdo do corpo eram considerados positivos e os do lado direito negativos.

Assim, os movimentos involuntários do corpo, incluindo o latejar, eram vistos como «sinais» de eventos que afetariam o destino individual de forma positiva ou negativa. Para afastar os efeitos negativos destes movimentos, faziam-se ofertas em ouro a Brahma.

Alguns dos sábios da antiga Astrologia Jyotish como Varahamhira (sec. VI a.c) davam importância a estes sinais, usando-os para «adivinhar» ou prever o futuro. Este sábio publicou no livro Brihat Samhita  um capítulo, o V, designado Anga Vidya, onde explica os segredos desta forma de interpretação. Segundo este sábio, a memorização dos 44 versos ou slokas e a devoção à divindade permite fazer previsões instantâneas sem perigo de errar. Por ex., quando o astrólogo era procurado para se obter informação acerca do futuro de um evento, o astrólogo devia observar cuidadosamente os gestos da pessoa enquanto esta fazia a pergunta ao astrólogo para ver se esta tocava alguma parte do corpo com os membros. Isso era interpretado de forma específica. (tocar os pés ou outra parte do corpo com a mão, etc.). A hora e o local da pergunta eram igualmente considerados nesta modalidade da Astrologia que é a Prashna ou Astrologia Horária.

Por curiosidade, deixamos alguns dos significados dos movimentos do corpo: o latejar no topo da cabeça significava aquisição de terras; o movimento de latejar nos olhos indicava morte; o movimento na parte superior do braço indicava  união com os amigos. Etc…

Glossário Astrológico- Anartha

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Os estudantes de Astrologia Jyotish estão familiarizados com a palavra Artha que corresponde a um dos quatro objetivos da existência terrena e que está associado com a acumulação de riqueza e de bens materiais. Também significa «aquilo que é necessário» para suportar as condições da existência terrena. O conceito de Artha está, portanto, ligado ao do percurso da alma quando esta está encarnada num corpo e associada a uma personalidade e destino específico na Terra.

Ora, o conceito de Anartha estabelece, por oposição ao referido atrás, «aquilo que não é necessário» ou seja, este conceito vai mais além da existência terrena e tem em conta o percurso global da alma em ligação com o fluxo universal do ser, não apenas no período de tempo que designamos por  «vida» mas  no contexto das conceções védicas de que a alma encarna muitas vezes no seu processo de aperfeiçoamento. Assim,  o conceito de Anartha refere-se ao  percurso da alma que vai para além da satisfação  das necessidades da vida material  e tem em conta os objetivos últimos do aperfeiçoamento da alma. Nesta medida, refere-se à necessidade de tomar consciência de que o ser de cada personalidade viva sobre a Terra não se reduz a esta existência apenas mas tem um passado de muitas vidas e um futuro de aperfeiçoamento consoante as intenções e as ações realizadas em cada vida bem como  com as lições aprendidas nesse processo. (Karma).

É assim que o conceito de Anartha  se associa a um outro, o de Nivrtii, formando a expressão Anartha – Nivrtii  relacionado com a devoção a Lord Krishna e pelo qual, segundo o Hinduísmo, cada pessoa se pode libertar de todos os apegos desnecessários para o aperfeiçoamento da alma e, dessa forma, atingir a «salvação» ou libertação final da «roda de samsara». Esta refere-se ao ciclo de morte e renascimento para o qual a alma é atraída no desejo de experimentar e vivenciar os prazeres do mundo físico e através do qual vai gerando «karma» pelas boas e más ações realizadas. Ao mergulhar na «roda de Samsara» a alma é levada a confundir a realidade com o plano sensível e as lutas e alegrias que este proporciona, sem se aperceber de que este é apenas um meio temporário de desenvolvimento do verdadeiro ser, que é a alma divina presente no âmago de todos os seres. Esta «cegueira espiritual impede que a pessoa tenha consciência do seu verdadeiro ser  e identidade  espiritual (Atma) e prende cada vez mais a alma ao ciclo das reincarnações.

Na Filosofia Védica que subjaz ao contexto da Astrologia Jyotish (que quer dizer, lembremo-lo, «Ciência da Luz») estes conceitos estão implicitamente presentes pois o objetivo deste saber, segundo os antigos mestres que o implementaram, era não apenas o de «prever o futuro» mas dar a conhecer a matriz do destino individual de cada um para que este, a partir daí , pudesse tomar consciência do verdadeiro propósito da sua existência e usar esse conhecimento para alcançar maior perfeição da Alma.

É assim neste contexto filosófico de evolução espiritual que surge o conceito de «Anartha» que enumera e inclui todas as «necessidades» criadas pela ilusão da vida terrena mas que são desnecessárias  a longo prazo no processo  espiritual de evolução da alma.

Mais ainda, Anartha é o conjunto de todas as «necessidades» ilusórias que cegam o ser humano e desviam a sua atenção da sua verdade mais profunda, que é a do ser espiritual que está no seu âmago e que contribuem para o prender a um mundo de ilusão, bloqueando o seu percurso espiritual. Anartha designa assim todo o conjunto de apegos e desejos que  bloqueiam o desenvolvimento espiritual do ser humano e o prendem ao mundo materialista e às suas necessidades ilusórias.

Muitas das coisas consideradas «Anartha» acompanham  cada personalidade  no ciclo de existências terrenas, podendo ter sido originadas  há muitas vidas atrás, e tendo sido alimentadas pelos desejos dessa personalidade, sendo  assim necessário um esforço considerável para que surja  a consciência de que não são realmente necessárias e, pelo contrário, são mesmo obstáculos ao desenvolvimento pessoal. O Anartha – Nivrtii corresponde então ao percurso de regresso à espiritualidade original e ao desapego em relação a todas as falsas necessidades criadas pelo ego humano material. Segundo este conceito, o discípulo ou candidato à vida espiritual deve identificar-se com a consciência de Lorde Krishna (ou, como poderíamos também dizer, deve identificar-se com o  «Eu divino» no seu  próprio âmago, ou «mestre interior» ou «Cristo Interno» conforme as correntes místicas que, apesar de origens diferentes, têm conceitos muito semelhantes a este respeito).

Através desta via, considera-se que «a alma regressa ao seu lar original» que é o plano espiritual, do qual a vida terrena é apenas um episódio finito intermédio e nunca um fim em si mesma.

Glossário Astrológico- Arudha Lagna

Arudha lagna capa

A Astrologia Jyotish reconhece, para além do habitual «Ascendente» que todos conhecemos, alguns «Ascendentes especiais» um dos quais é o Arudha Lagna.  A palavra «arudha» significa «imagem» e «lagna» é a palavra que significa «Ascendente». Assim sendo, o Arudha Lagna é o ascendente que revela a nossa imagem para o exterior, ou seja, a forma como os outros nos veem.  Podemos na verdade aprender bastante sobre nós através da forma como os outros apreendem a nossa realidade. Boa parte da nossa identidade é fruto desta perceção do olhar dos outros. Como referiu o filósofo Jean Paul Sartre, não teríamos consciência de quem somos se não sentíssemos o olhar dos outros a «efetuar juízos sobre nós». Os outros podem ser o nosso «Inferno», nas palavras daquele filósofo quando nos atribuem rótulos  que nos definem. Mas, acrescentamos nós, sem esses juízos, teríamos apenas uma vaga impressão acerca da nossa realidade. Pelo menos daquela que se refere à nossa personalidade.

O Arudha Lagna representa pois, em boa parte, aquilo que, em Psicologia , se chama  as «impressões», isto é,  a imagem simplificada formada a partir dos indícios externos que os outros captam de nós. O Arudha Lagna não representa, deste modo, o nosso ser essencial mas apenas o «ser aparente» : se falamos de uma certa maneira e nos vestimos de certa maneira, os outros tiram ilações disso. Se viajamos num carro caro, as pessoas depreenderão que  temos muito dinheiro (e gostamos de o ostentar); se usamos uma linguagem erudita, concluirão que somos instruídos; e por aí afora.

Por esta razão, muitos textos clássicos referem que o Arudha Lagna é o «Ascendente das ilusões», apanhando apenas o nosso ser superficial e simplificado, capturado num relance pelos outros que se cruzam connosco.  Ora,  o facto de os outros  (e nós também) criarem  estas imagens sobre nós é inevitável, faz parte dos mecanismos de defesa, longamente desenvolvidos em milhões de anos de evolução, para garantir que sobrevivemos  num meio povoado por muitos desconhecidos: formar uma «imagem» imediata  desses estranhos permite-nos identificar  alguma ameaça que possam oferecer ao cruzarem-se com o  nosso caminho. Tal imagem, porque é  simplificada e simplista, é necessariamente superficial e pode mesmo ser errada mas é necessária para podermos continuar a conviver com pessoas que nunca vimos antes, sem estar  continuamente a temer pela própria vida.  Em termos astrológicos, o Arudha Lagna pode ser muito  útil para o nosso autoconhecimento pois, afinal, quando passamos uma certa imagem para os outros, podemos sempre interrogar-nos sobre o porquê dessa imagem específica em vez de outra. E, se tal imagem não nos agradar, saber que ela existe pode ajudar-nos a corrigi-la, recriando-a ou talvez até mesmo  tentar substituituí-la. Conhecer a imagem de nós que os outros apreendem ajuda-nos a perceber o impacto que, a cada encontro, tendemos a gerar nos outros.

Quanto ao modo de calcular o Arudha Lagna, julgamos desnecessário indicá-lo aqui pois qualquer software de Astrologia Jyotish- incluindo o aconselhado e gratuito Jaganatha Hora apresenta na Rasi ou carta Astrológica D-1 a indicação de todos os Ascendentes especiais. O Arudha Lagna aparece como a sigla AL. A casa/signo onde se encontra esta sigla é a que corresponde ao Arudha Lagna.

Glossário Astrológico- Ayanamsa

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Esta é uma palavra em Sânscrito composta por duas partes : Ayana, que significa «movimento» e outra, de que já falámos neste glossário  e que tem ampla aplicação na Astrologia Jyotish, «amsha» que significa «porção».

A palavra Ayanamsa tem muita relevância para os estudantes e praticantes de Astrologia Jyotish referindo-se à diferença entre o Zodíaco Tropical, seguido pela Astrologia Ocidental e o Zodíaco Sideral, seguindo pela Astrologia Jyotish.

Quando se trata de calcular a posição dos corpos celestes, existem diferentes formas de o fazer e, por isso, há diversos conceitos de «Ayanamsa», levando a disputas astronómicas entre os peritos. Mas, em termos mais gerais, a palavra Ayanamsa designa a diferença entre as duas formas mais comuns de calcular a posição dos corpos celestes: a Astrologia Jyotish faz esses cálculos tendo por ponto de referência as estrelas fixas ou constelações celestes do Zodíaco Sideral. A Astrologia Ocidental faz esse cálculo tendo por ponto de referência o equinócio vernal  que marca o início da Primavera e que deveria corresponder a 0º do signo Carneiro. No entanto, devido a um fenómeno astronómico chamado precessão dos equinócios, há em cada ano um «atraso» no movimento tropical anual do Sol ao longo da Eclíptica (este é um círculo imaginário que projeta, na esfera celeste, o movimento aparente do Sol  ao longo de um ano tal como é visto da Terra. Na verdade, como sabemos, é a Terra que se move à volta do Sol e não este que orbita á volta da Terra)  de modo que, atualmente, o recuo em relação ao signo Carneiro  marca a diferença entre o Zodíaco Tropical e Sideral . Entre os dois pontos de referência existe uma diferença que é, atualmente, de cerca de 24º 6’ 2” a menos para o Zodíaco sideral.  Ou seja, o Zodíaco tropical comporta-se como se em cada equinócio vernal não houvesse qualquer diferença no movimento anual do Sol, continuando a fazer coincidir o equinócio vernal com 0º de Carneiro quando, na verdade, há um recuo para o signo Peixes de  cerca de 24º 6’2” (Lahiri).

Se assumirmos que o movimento em precessão dos equinócios é cerca de 1º 23’ 49’’ por século e é constante (cálculos da NASA) então são necessários mais de 25 000 anos para que os dois Zodíacos- o Tropical e o Sideral – coincidam e o equinócio vernal corresponda efetivamente aos 0º do signo Carneiro. Mas, após essa «coincidência» os dois Zodíacos começam novamente a divergir, por causa do movimento em precessão dos equinócios. Teoricamente, só de 25 000 em 25 000 anos é que os dois Zodíacos são coincidentes.

Mas a discussão à volta do conceito de Ayanamsa não é pacífica entre os teóricos, não porque haja rejeição do conceito de precessão dos equinócios- que é uma evidência científica indesmentível- mas porque há diversas formas de calcular essa diferença da «porção» dos dois Zodíacos que os torna diferentes. As diferenças entre os vários métodos de cálculo podem ir até 1º 30’ de diferença entre os vários «Zodíacos Siderais» assim encontrados.  Estas diferenças de método têm implicação direta sobre o modo de calcular a posição dos planetas no horóscopo, os períodos Dasa/antardasha, etc. e fazem-nos perceber que, na Astrologia Jyotish, pode haver interpretações muito diferentes de um mesmo mapa astrológico, (porque em cada um dos «métodos» utilizados para calcular o Ayanamsa a posição dos planetas, os dasa, etc., são diferentes) sendo que se estima que é possível ter pelo menos dez diferentes versões de um mapa astrológico apenas devido à forma diferente de calcular o Ayanamsa.

Na Índia, o Ayanamsa segundo o método Lahiri é o adotado oficialmente pelo Estado para os cálculos astronómicos do calendário e é também aceite pela maioria dos astrólogos. Outros igualmente populares são os de Krishnamurti e Raman. No Ocidente o Ayanamsa de Lahiri tem também a aceitação  de um grande número de  astrólogos.  Mas, como em qualquer ciência, também na Astrologia Jyotish não há lugar para «verdades absolutas» nem garantias totais de que o método escolhido para calcular o Ayanamsa é de facto «o mais verdadeiro» embora, intuitivamente, os estudantes de Astrologia, quando escolhem um dos métodos, acreditem que este é o melhor e o mais correto.

Glossário Astrológico- Aflição

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Em muitos dos nossos artigos usamos  a expressão «planeta aflito» e convém explicar com clareza o que é que isto significa, sendo que, à partida, já sabemos que se trata de uma condição negativa que surge como um obstáculo à expressão positiva da energia do planeta ou casa- as casas e os planetas podem ser ditos «aflitos».

Um planeta aflito é aquele que sofre os efeitos da relação com um planeta fraco ou um planeta maléfico. O estado de aflição  implica sempre uma relação- entre dois planetas ou entre um planeta e uma casa e a aflição é o resultado dessa relação.

Um planeta é dito «aflito» quando está em conjunção  ou em aspeto total com um dos planetas maléficos naturais: Marte, Saturno, Rahu e Ketu. (O Sol é considerado semi -maléfico). A energia negativa destes  planetas quando «olham» para o planeta afetado interfere com a capacidade desse planeta produzir os seus efeitos positivos A aflição é consideravelmente diminuída quando estes planetas (à exceção de Rahu e Ketu) são funcionais benéficos, a menos que estejam fracos como acontece, por ex., quando estão debilitados ou em signo inimigo. Quando um planeta ou casa -as casas também se tornam «aflitas» em resultado da presença ou do aspeto dos planetas em causa- recebe o aspeto de um destes planetas e estes são simultaneamente maléficos naturais e maléficos funcionais (pode conhecer aqui quais os planetas funcionais benéficos e maléficos para cada signo Ascendente) a aflição é mais intensa e os seus efeitos  são mais negativos.

Tradicionalmente, a Astrologia Jyotish considera que quando um planeta recebe o aspeto do regente da 6ª, 8ª ou 12ª casas ou quando está colocado numa destas casas, comumente designadas por dusthana  ou maléficas, fica, por essa razão, aflito.

Um planeta enfraquecido pela condição de combustão ou derrotado em guerra planetária  ou ainda, até certo ponto, colocado no Nakshatra cuja regência pertence a  um planeta funcional maléfico ou que rege uma das casas dusthana- 6ª, 8ª ou 12ª- também se torna aflito, embora a extensão dessa «aflição» seja alvo de controvérsia entre os praticantes da Astrologia Jyotish.  Um planeta «cercado por maléficos»- do seu aldo esquerdo e do lado direito, tanto na mesma casa como nas duas casas à sua direita e à sua esquerda, também é considerado «aflito». Esta última condição forma o yoga nefasto Papakarti yoga.

As casas , tal como os planetas, sofrem aflição. Para além das que já foram referidas e que têm a ver com  a presença de planetas aflitos ou com o facto de o seu regente estar aflito, há outra razão que, segundo a tradição da Jyotish, torna uma casa «aflita»: sempre que o planeta karaka ou significador dessa casa está presente nessa casa, destrói a casa devido a um excesso de força dos assuntos dessa casa, que se tornam demasiado intensos  conduzindo ao fracasso dessa área de vida. Designa-se essa condição de karaka bhava nashaya. Assim, quando vénus está presente na 7ª casa no mapa de um nativo com parceiro feminino ou Júpiter está colocado na 7ª casa num mapa cujo parceiro é masculino; quando o Sol está colocado na 9ª casa; quando Júpiter  está na 5ª casa  isso cria uma condição de aflição nessas casas.

Quando uma casa está aflita e o seu regente também está aflito por outras razões, as áreas de vida que essa casa significa ficam seriamente obstruídas. Os planetas e as casas aflitos inviabilizam a frutificação dos yogas presentes no horóscopo e conduzem a uma vida que terá que se defrontar com obstáculos nessas áreas enfraquecidas pela aflição.

Glossário Astrológico- Artha

Artha

Artha refere-se ao suporte material e físico da vida terrena e é comumente associado com a «riqueza» pois o modo de vida humano torna-se impossível sem dinheiro para assegurar os bens de conforto e de sobrevivência nas sociedades do mundo ocidental.

Na Astrologia,  artha refere-se à designação de um dos 4 grupos de casas do horóscopo, tendo em mente que este simboliza os quatro destinos da vida terrena: dharma, kama, artha e moksha.  Neste sentido, classifica as casas 2, 6 e 10. Como ser encarnado na vida terrena, o homem envolve-se na vida social na qual desenvolve um trabalho remunerado, enfrenta oposições, e obstáculos e luta pelo reconhecimento, trabalho condigno, sucesso material e status para, desse modo, ter uma vida próspera e alcançar riqueza.  Esse sucesso aparece como fruto do esforço e do trabalho, das competências e conhecimentos que o ser humano desenvolve intencionalmente nesta vida e pelos quais se envolve nas lutas e desejos que são próprios do mundo terreno. A lição básica que estas casas ensinam é a de que, desde que  a pessoa trabalhe arduamente e se esforce, alcançará o necessário para viver de forma confortável e digna neste mundo, embora nem todos alcancem riqueza.

Ao reconhecer Artha como um dos propósitos de vida do ser humano, a Astrologia Jyotish admite que a posse de bens materiais, posição e reconhecimento social são objetivos legítimos da vida humana e que não há nada de errado em prosseguir essa via para alcançar uma vida feliz na Terra. Mas artha não se refere apenas aos «bens materiais» como o dinheiro joias, etc.. O conhecimento e todas as competências e recursos mentais do ser humano são igualmente «riqueza» e posses de cada um, na medida em que são alguma coisa que «se acrescenta» à sua identidade. A família que se constitui para prosseguir a sua linhagem na Terra é igualmente uma posse e pertence ao reino de Artha.

Artha é necessário para assegurar a sobrevivência e a segurança dos seres encarnados que , por via de existirem na Terra, necessitam de assegurar um variado conjunto de recursos para viverem bem. Mas nenhum dos 4 objetivos da vida humana é exclusivo nem elimina os outros, apesar de cada natividade revelar em geral, um ou dois dos 4 objetivos de vida que se tornam dominantes em cada destino individual. Cada um encerra lições específicas suportadas pelo karma- positivo e negativo- individual e todos são igualmente importantes. Reconhecer isso permite não cair em fundamentalismos que identificam o objetivo Artha como materialista e, logo, necessariamente mau. Não é, e o desafio de cada um é integrar este objetivo com aquele que é revelado pelas casas trikona- 1, 5, 9- ligando os objetivos materiais aos espirituais, pois todos eles fazem parte do destino humano enquanto o homem tem  que construir a sua vida aqui na Terra.