Trânsitos de Saturno- Ardhastama e Asthama Sani

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Na Astrologia Jyotish,  o trânsito de Saturno é considerado como um fator de grande importância quando este atravessa algumas casas do horóscopo, tendo por referência a Lua.  Falámos, em  artigos anteriores, dos trânsitos Sade sati e do retorno de Saturno mas há outros dois considerados muito importantes , especialmente pelos efeitos negativos, segundo a tradição,  que trazem para a vida dos nativos: o trânsito pela quarta  casa  a partir da Lua ou Ardhastama Sani e o trânsito pela 8ª casa a partir da Lua ou Asthama Sani.

Trânsito Ardhastama Sani

Este período é menos maléfico, segundo a tradição, do que o trânsito pela 8ª casa a partir da Lua.  Este trânsito produz  problemas financeiros, tem um impacto negativo  na profissão e também no sentimento geral de felicidade subjetiva. O relacionamento com a família passa por dificuldades e pode haver problemas com a casa, com veículos, com propriedades da família, incluindo terras. Os efeitos deste trânsito dependem em grande parte da casa onde está colocada a Lua no horóscopo, sendo piores, é claro, quando esta está colocada em casas maléficas. Para os mais idosos, este período pode trazer o final da vida. Como o próprio nome deste trânsito indica, este trânsito tem «metade» dos efeitos maléficos do trânsito pela 8ª casa a partir da Lua.

Trânsito Asthama Sani

Este trânsito de Saturno pela oitava casa a partir da Lua é considerado por muitos como mais maléfico do que o Sade Sati. Traz perigo para a vida da pessoa, litígios e desentendimentos com os parceiros, incluindo o cônjuge, havendo risco de divórcio, amizades que se transformam em inimizades, reviravoltas e mudanças bruscas na carreira, na vida profissional. Pode haver traição por parte dos amigos, problemas causados por crianças, doenças inesperadas, bem como o agudizar de situações de doença crónica, com maior propensão para acidentes. Pode haver perdas financeiras inesperadas e de grande monta; podem surgir litígios que conduzem a situações de tribunal, nas quais há grande probabilidade de perder, querelas com os parceiros, mudanças súbitas de emprego – ou de transferência de um local para outro, com inconvenientes para  o nativo. Muitos enfrentam a possibilidade de cirurgia durante este período.  Por vezes ocorre alguma morte na família.

Devemos salientar, porém, que estes efeitos podem não se manifestar, ou podem manifestar-se apenas alguns deles e com fraca intensidade, dependendo da força e da colocação da  Lua no horóscopo e dos aspetos que Saturno recebe no horóscopo de nascimento, bem como da sua colocação. Os efeitos negativos manifestam-se principalmente nos casos em que Saturno está fraco, mal colocado no horóscopo, ou recebendo aspetos de planetas maléficos. Nesse caso, tendem a surgir os efeitos negativos, de acordo com o horóscopo e a força geral deste e do regente do Ascendente e da Lua.

Finalmente, deixamos o comentário  do astrólogo da Jyotish, Narasimah K., que lembra que os nativos que sofrem mais com os trânsitos de Saturno são aqueles que , no seu horóscopo de nascimento, têm Saturno colocado, respetivamente na 12ª, 1ª ou 2ª casas a partir da Lua (Sade Sati) ou na 4ª  ou 8ª casa a partir da Lua. Estes, quando Saturno em trânsito transita por aquelas casas, sofrem o impacto dos significados do trânsito de forma mais aguda do que os restantes, porque isso faz parte da matriz kármica  da sua existência.

O Retorno de Saturno

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O retorno de Saturno, que dura cerca de 30 anos a acontecer, é um trânsito da maior importância, embora seja também temido por muitos, devido ao significado  de «maléfico» atribuído a Saturno. Porém, apesar de ser designado como o maior maléfico, do ponto de vista da existência material em que nos encontramos, nem sempre os efeitos de Saturno se fazem sentir através de experiências catastróficas na nossa vida.

Saturno é muitas vezes associado, na mitologia, ao tempo, nomeadamente o tempo passado, sendo por isso, também, um dos principais indicadores do karma trazido do passado, a par com Rahu e Ketu. E, quando regressa à posição em que se encontrava no momento do nascimento, isso marca o finalizar de um ciclo kármico e a chegada de uma «nova onda» de karma na existência. Muitos astrólogos fazem o cômputo do ciclo de Saturno tendo em conta os vários períodos de 7 anos que atravessamos e que correspondem a uma distância de 3, 6, 9 (e 12) signos em relação à  posição de nascimento.  O que isso significa, pode ser lido de diversas formas, incluindo aquelas que partem do significado das casas do horóscopo, de acordo com a Astrologia Jyotish: as casas 3 e 6 são casas upachaya, casas de crise e de crescimento  através de dificuldades e de revezes; a  9ª casa, uma casa trikona, é também significativamente designada por «casa do destino pessoal» aquele, justamente, que construímos nesta vida, a partir das escolhas  e da orientação que decidimos livremente seguir. Se adotarmos este raciocínio como plausível, então, em cada ciclo de  vinte e nove anos e meio, trinta anos de Saturno, não apenas nos defrontamos com «ondas de karma» acumulado no passado e que temos que compensar na existência presente, como temos a oportunidade de, na segunda metade do ciclo, escolher um caminho diferente daquele que nos conduziu à situação e ao contexto de experiências trazidas por Saturno para a nossa vida.

A existência humana não é feita de mero fatalismo sem esperança, é também liberdade pela qual temos a oportunidade de escolher um caminho diferente e que pode contribuir decisivamente para o nosso desenvolvimento espiritual e global como seres humanos vivendo na Terra para aprender pela experiência. Não acreditamos em forças cósmicas cujo objetivo essencial seja punir ou castigar e é por isso que não vemos em Saturno «o carrasco cósmico» que a tradição muitas vezes pinta. Muitas vezes Saturno atua dessa forma, mas apenas porque preferimos manter-nos cegos para as nossas responsabilidades ou preferimos seguir caminhos que «não servem o nosso bem mais elevado». Mas, nesses casos, o «castigo de Saturno» nunca é um fim em si mesmo, ele aparece como meio eficaz para nos obrigar a ver e a descobrir o que tem que ser visto e descoberto. É por causa disso que muitas vezes se diz que Saturno não tem misericórdia nem perdão, que é frio  e rígido, mantendo inexoravelmente o fluxo do sofrimento. Infelizmente, como muitos de nós já descobrimos, o sofrimento é o meio mais eficaz para aprendermos lições preciosas que nunca aprenderíamos se a nossa vida fosse só «rosas e alegria no caminho». Todos nós temos «contas para acertar» na lei cósmica de compensação mas estas pagam-se tendo em conta o que cada um é capaz de aguentar e, talvez, com o que cada um escolhe aguentar para alcançar o seu próprio desenvolvimento espiritual. Sabemos que  é muito mais  fácil de dizer isto do que experimentá-lo, e essa é a razão da má fama de Saturno.

Quando nascemos, Saturno está colocado numa determinada casa do horóscopo e recebe- ou não- aspetos deste ou daquele planeta. Essa disposição de Saturno no horóscopo define a natureza das principais «contas kármicas» que teremos que «acertar» nesta vida. É nessa área de vida que termos que enfrentar responsabilidades duras, difíceis, avassaladoras mesmo para alguns de nós, embora possam ser relativamente leves para outros. Mas é essa a matriz do karma pessoal que será mais decisiva na existência e que define em grande parte o sucesso do nosso destino individual ou da nossa «missão de vida». Estudar a posição de Saturno e os aspetos que recebe no horóscopo de nascimento é pois o primeiro passo que teremos que dar, no sentido de entendermos melhor o que fazemos aqui.

Os primeiros 30 anos do ciclo de Saturno são o processo de adaptação à matiz da existência que nos foi dada: os pais e a família em que nascemos, o país, o contexto de vida em termos gerais. Tudo isso obedece a um processo determinado pelo karma passado em que as nossas escolhas têm realmente pouco a dizer: somos moldados pelo ambiente próximo de formas que não escolhemos e em relação às quais pouco podemos fazer. Mas ,quando Saturno regressa ao ponto em que se encontrava, no momento do nascimento, pela primeira vez,  percebemos que novas oportunidades são abertas, apesar de algumas das experiências que vêm ao nosso encontro poderem ser desafiadoras e difíceis para muitos.  A maturidade não chega até Saturno voltar ao ponto em que se encontrava quando nascemos. Nos cerca de 30 anos que separam estes dois momentos, construímos uma identidade e uma matriz de vida e temos a oportunidade de compreender que o nosso futuro se relaciona com esses limites nos quais nos desenvolvemos até à vida adulta. A primeira lição de Saturno é talvez a de compreender que não temos possibilidades infinitas mas que o leque de possibilidades de que dispomos pressupõe essa matriz inicial e que teremos que aprender a viver dentro dela. A lição seguinte é a de que somos livres, no interior dessa matriz, para escolher estas possibilidades em vez de outras, estas respostas em vez de outras; e aprendermos a ser responsáveis pelas escolhas que fazemos. Nem Saturno nem um qualquer «destino abstrato» pode impedir-nos de termos uma vida satisfatória e feliz em muitos aspetos. É certo que, se na matriz do nosso destino estiverem inscritas certas experiências difíceis, não é possível evitá-las mas é possível alterar em parte essas experiências pelas escolhas que fazemos a partir delas. O futuro de cada um de nós, associado a Júpiter, o companheiro inseparável de Saturno, não é nunca desligado do nosso passado e da forma como lidamos com ele. Esse futuro é ajustado e modificado continuamente por cada escolha que fazemos e realizamos na nossa vida. É por isso que nenhum sistema de previsão ou de «profecia»  tem um caráter absoluto, incluindo as previsões astrológicas, porque estas fazem-se com base na matriz que cada traz para esta vida mas as possibilidades dessa matriz são alteradas pelas escolhas livres de cada um durante a existência.

Assim, com o retorno de Saturno, podemos pela primeira vez sentir verdadeiramente que , dentro das limitações da nossa vida (eu gostaria de ser milionário, por ex., mas a matriz do meu horóscopo não me permite realizar esse desejo, por mais que tente) podemos ser livres de realizar muitas coisas que nos farão felizes e permitirão uma vida cheia de significado positivo, desde que assumamos a responsabilidade de aceitar o nosso «destino», sendo que, por este, não deve entender-se uma  fatalidade totalmente determinada mas uma matriz que pode ser trabalhada e modificada (mas não substituída) pelas nossas escolhas.

Cada um de nós vive pelo menos um retorno de Saturno e, em média, dois retornos de Saturno. Cada um representa uma «onda de  karma» específico do passado que precisamos de compensar para «avançar no caminho da Luz». Não é por acaso que Saturno também se associa à «obra ao negro» dos alquimistas: descobrir a negritude em primeiro lugar para a poder substituir pela pureza do diamante. Este não surge do carvão a não  ser após muito tempo e depois de uma incrível pressão. Connosco as coisas não são muito diferentes. Mas, no final deste «deve e haver», o resultado pode ser compensador.

Trânsitos de Saturno #1- Sade Sati

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Saturno é, em conjunto com Rahu e Ketu, um dos «grandes maléficos», responsável por trazer lições específicas do karma em momentos bem determinados das nossas vidas. Por outro lado, a Lua é decisiva na determinação do destino individual segundo a Astrologia Jyotish. Por essa razão, o trânsito de Saturno pela Lua de nascimento é considerado um período da maior importância para o destino individual. E, sendo os seus  efeitos muitas vezes difíceis, não admira que o «período de 7 anos e meio» ou Sade Sati , correspondente ao trânsito de Saturno pelo signo que antecede a Lua, pelo signo da Lua e pelo signo imediatamente a seguir à Lua (Saturno leva mais ou menos 30 anos a dar uma volta ao Zodíaco, o que dá cerca de 2 anos e meio em cada signo) é temido pela generalidade das pessoas. Porém, tal como acontece com algumas outras configurações do horóscopo que são alvo de temores e, muitas vezes, de interpretações erradas (dosha de Marte, Kalsarpa yoga, etc) também, no que se refere ao grande trânsito de Saturno, é preciso desmistificar muito do que se diz sobre esta matéria. Note-se que não pretendemos dizer que este trânsito de Saturno não traz muitas dificuldades e problemas difíceis de enfrentar e de resolver; para muitos será assim; mas, o que queremos dizer, é que não tem que ser necessariamente assim. Tudo depende da configuração do horóscopo, do estado de Saturno e da sua colocação no horóscopo de nascimento, do período dasha-antardasha e do Ascendente  da pessoa. Nos casos em que Saturno é inimigo do regente do Ascendente ou rege casas maléficas para esse Ascendente, será de esperar que os seus trânsitos sejam mais difíceis. Por ex., Saturno rege casas  maléficas  para o Ascendente Caranguejo, Virgem e Peixes. E é  grande inimigo do Sol e  inimigo de Ketu.

Trânsito Sade Sati de Saturno

Cada pessoa experiencia pelo menos um período do trânsito Sade Sati de Saturno. A maioria experiencia dois destes períodos e uma outra parte experiencia 3 ciclos destes ao longo da vida (quando, por ex., nasce durante este trânsito de Saturno ou imediatamente a seguir).

1º ciclo: quando ocorre o primeiro trânsito de Saturno pela Lua, designado por Mangu Sani,  a saúde da criança é afetada, bem como a sua educação. Este trânsito é, porém, segundo diz a tradição, benéfico para o pai da criança.

2º ciclo: este ciclo ocorre na vida adulta, quando o indivíduo tem 30 ou mais anos. Designa-se por Pongu Sani e diz-se que este  2º período traz boa fortuna e bons eventos para a vida do nativo sendo, no entanto, menos positivo para o pai.

3ª ciclo: Este ciclo designa-se por Marana Sani e ocorre para alguns mas não todos os nativos, embora haja cada vez mais pessoas que passarão por ele, dada a maior longevidade  experimentada atualmente. Segundo a tradição, este ciclo afeta negativamente a saúde e pode mesmo indicar a morte do nativo. Para os que nasceram durante este trânsito de Saturno, isto significa que este ciclo pode diminuir a longevidade pois pode ocorrer pouco depois dos 50 anos. Para os que passarem por estes 3 ciclos, isto representa um forte peso kármico nas suas vidas pois passarão 22 anos e meio sob a influência deste trânsito de Saturno.

Para além destes ciclos, que se referem ao número de vezes que uma pessoa pode experienciar este trânsito de Saturno ao longo da vida, cada um destes ciclos , que dura 7 anos e meio, é dividido em 3 fases: a primeira, que corresponde ao trânsito de Saturno pelo signo/casa anterior ao signo onde está colocada a Lua, tem o nome de Viraya Sani. Este trânsito pela 12ª casa em relação à Lua indica perdas financeiras que podem ser avultadas, problemas em viagens de longa distância, perda de posição social e profissional, desprestígio, perda de boa reputação. Se acontece durante a infância ou no período de educação/formação, este período pode trazer problemas de concentração , desmotivação em relação aos estudos, maus resultados nos estudos devido a falta de interesse ou  de envolvimento do nativo.

A segunda fase deste trânsito  ocorre quando Saturno   transita pelo signo onde está colocada a Lua e chama-se  Janma Sani . Os efeitos deste trânsito têm em conta, obviamente, a força e a colocação da Lua no horóscopo de nascimento, considerando-se que, para aqueles que têm a Lua no signo Touro ou Caranguejo, (signo de exaltação ou próprio signo) os efeitos deste trânsito são bastante mais fáceis e suaves. Já para os que têm a Lua no planeta de debilitaçãoEscorpião– este período é mais difícil de enfrentar. Esta fase afeta o estado mental da pessoa, causando menos alegria ou falta de  motivação, preocupações, isolamento emocional com indiferença em relação aos familiares, menor envolvimento nas tarefas profissionais, problemas na carreira por causa disso.

A terceira e última fase deste trânsito chama-se Padha Sani ou Kudumba Sani  e corresponde ao trânsito de Saturno pela 2ª casa a partir da Lua. Mais uma vez, e dependendo do estado da Lua natal (e dos aspetos de outros planetas que a Lua recebe ou não, a casa onde está colocada, etc.,) esta fase pode trazer problemas financeiros, problemas na interação com os membros da família. A tradição afirma que, se houver mais do que um membro da família a atravessar este trânsito, pode haver muito sofrimento a nível familiar.  A mesma tradição afirma que pode haver tendência para acidentes, com fratura da perna.

Apesar de tudo o que foi dito e de muitas «verdades adquiridas» que se pronunciam a propósito deste trânsito de Saturno- uma delas, por ex., refere que os nativos com a Lua em Balança- signo no qual Saturno está exaltado – ou os que têm a Lua nos signos de Saturno- Capricórnio ou Aquário- não sofrem com este trânsito pois esta colocação da Lua diminuiria os efeitos nefastos. Porém, isto não é tão linear e exige a análise completa do horóscopo de cada um, não havendo «receitas universais» que sejam aplicáveis a qualquer um. Veja-se por ex., o caso de Mahatma Gandhi, Ascendente em  Balança e Lua em Caranguejo e que foi assassinado durante o Sade Sati de Saturno. Tradicionalmente tem-se aceitado que, sempre que Saturno recebe o aspeto de Júpiter em trânsito, os seus efeitos maléficos são reduzidos. Também se afirma que o trânsito pelo signo de Balança- no qual está exaltado- e no signo de Aquário- seu signo Mooltrikona- não produz efeitos  maléficos. Outros fatores  referidos para diminuir  os maus efeitos de Saturno são: um período dasha /bukti favorável no período do trânsito e a força das casas afetadas (12ª, 1ª e 2ª a partir da Lua),objetivada num número elevado de pontos (bindus) na força Ashtakvarga.

Voltaremos a falar dos trânsitos de Saturno num próximo artigo.