O Retorno de Saturno

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O retorno de Saturno, que dura cerca de 30 anos a acontecer, é um trânsito da maior importância, embora seja também temido por muitos, devido ao significado  de «maléfico» atribuído a Saturno. Porém, apesar de ser designado como o maior maléfico, do ponto de vista da existência material em que nos encontramos, nem sempre os efeitos de Saturno se fazem sentir através de experiências catastróficas na nossa vida.

Saturno é muitas vezes associado, na mitologia, ao tempo, nomeadamente o tempo passado, sendo por isso, também, um dos principais indicadores do karma trazido do passado, a par com Rahu e Ketu. E, quando regressa à posição em que se encontrava no momento do nascimento, isso marca o finalizar de um ciclo kármico e a chegada de uma «nova onda» de karma na existência. Muitos astrólogos fazem o cômputo do ciclo de Saturno tendo em conta os vários períodos de 7 anos que atravessamos e que correspondem a uma distância de 3, 6, 9 (e 12) signos em relação à  posição de nascimento.  O que isso significa, pode ser lido de diversas formas, incluindo aquelas que partem do significado das casas do horóscopo, de acordo com a Astrologia Jyotish: as casas 3 e 6 são casas upachaya, casas de crise e de crescimento  através de dificuldades e de revezes; a  9ª casa, uma casa trikona, é também significativamente designada por «casa do destino pessoal» aquele, justamente, que construímos nesta vida, a partir das escolhas  e da orientação que decidimos livremente seguir. Se adotarmos este raciocínio como plausível, então, em cada ciclo de  vinte e nove anos e meio, trinta anos de Saturno, não apenas nos defrontamos com «ondas de karma» acumulado no passado e que temos que compensar na existência presente, como temos a oportunidade de, na segunda metade do ciclo, escolher um caminho diferente daquele que nos conduziu à situação e ao contexto de experiências trazidas por Saturno para a nossa vida.

A existência humana não é feita de mero fatalismo sem esperança, é também liberdade pela qual temos a oportunidade de escolher um caminho diferente e que pode contribuir decisivamente para o nosso desenvolvimento espiritual e global como seres humanos vivendo na Terra para aprender pela experiência. Não acreditamos em forças cósmicas cujo objetivo essencial seja punir ou castigar e é por isso que não vemos em Saturno «o carrasco cósmico» que a tradição muitas vezes pinta. Muitas vezes Saturno atua dessa forma, mas apenas porque preferimos manter-nos cegos para as nossas responsabilidades ou preferimos seguir caminhos que «não servem o nosso bem mais elevado». Mas, nesses casos, o «castigo de Saturno» nunca é um fim em si mesmo, ele aparece como meio eficaz para nos obrigar a ver e a descobrir o que tem que ser visto e descoberto. É por causa disso que muitas vezes se diz que Saturno não tem misericórdia nem perdão, que é frio  e rígido, mantendo inexoravelmente o fluxo do sofrimento. Infelizmente, como muitos de nós já descobrimos, o sofrimento é o meio mais eficaz para aprendermos lições preciosas que nunca aprenderíamos se a nossa vida fosse só «rosas e alegria no caminho». Todos nós temos «contas para acertar» na lei cósmica de compensação mas estas pagam-se tendo em conta o que cada um é capaz de aguentar e, talvez, com o que cada um escolhe aguentar para alcançar o seu próprio desenvolvimento espiritual. Sabemos que  é muito mais  fácil de dizer isto do que experimentá-lo, e essa é a razão da má fama de Saturno.

Quando nascemos, Saturno está colocado numa determinada casa do horóscopo e recebe- ou não- aspetos deste ou daquele planeta. Essa disposição de Saturno no horóscopo define a natureza das principais «contas kármicas» que teremos que «acertar» nesta vida. É nessa área de vida que termos que enfrentar responsabilidades duras, difíceis, avassaladoras mesmo para alguns de nós, embora possam ser relativamente leves para outros. Mas é essa a matriz do karma pessoal que será mais decisiva na existência e que define em grande parte o sucesso do nosso destino individual ou da nossa «missão de vida». Estudar a posição de Saturno e os aspetos que recebe no horóscopo de nascimento é pois o primeiro passo que teremos que dar, no sentido de entendermos melhor o que fazemos aqui.

Os primeiros 30 anos do ciclo de Saturno são o processo de adaptação à matiz da existência que nos foi dada: os pais e a família em que nascemos, o país, o contexto de vida em termos gerais. Tudo isso obedece a um processo determinado pelo karma passado em que as nossas escolhas têm realmente pouco a dizer: somos moldados pelo ambiente próximo de formas que não escolhemos e em relação às quais pouco podemos fazer. Mas ,quando Saturno regressa ao ponto em que se encontrava, no momento do nascimento, pela primeira vez,  percebemos que novas oportunidades são abertas, apesar de algumas das experiências que vêm ao nosso encontro poderem ser desafiadoras e difíceis para muitos.  A maturidade não chega até Saturno voltar ao ponto em que se encontrava quando nascemos. Nos cerca de 30 anos que separam estes dois momentos, construímos uma identidade e uma matriz de vida e temos a oportunidade de compreender que o nosso futuro se relaciona com esses limites nos quais nos desenvolvemos até à vida adulta. A primeira lição de Saturno é talvez a de compreender que não temos possibilidades infinitas mas que o leque de possibilidades de que dispomos pressupõe essa matriz inicial e que teremos que aprender a viver dentro dela. A lição seguinte é a de que somos livres, no interior dessa matriz, para escolher estas possibilidades em vez de outras, estas respostas em vez de outras; e aprendermos a ser responsáveis pelas escolhas que fazemos. Nem Saturno nem um qualquer «destino abstrato» pode impedir-nos de termos uma vida satisfatória e feliz em muitos aspetos. É certo que, se na matriz do nosso destino estiverem inscritas certas experiências difíceis, não é possível evitá-las mas é possível alterar em parte essas experiências pelas escolhas que fazemos a partir delas. O futuro de cada um de nós, associado a Júpiter, o companheiro inseparável de Saturno, não é nunca desligado do nosso passado e da forma como lidamos com ele. Esse futuro é ajustado e modificado continuamente por cada escolha que fazemos e realizamos na nossa vida. É por isso que nenhum sistema de previsão ou de «profecia»  tem um caráter absoluto, incluindo as previsões astrológicas, porque estas fazem-se com base na matriz que cada traz para esta vida mas as possibilidades dessa matriz são alteradas pelas escolhas livres de cada um durante a existência.

Assim, com o retorno de Saturno, podemos pela primeira vez sentir verdadeiramente que , dentro das limitações da nossa vida (eu gostaria de ser milionário, por ex., mas a matriz do meu horóscopo não me permite realizar esse desejo, por mais que tente) podemos ser livres de realizar muitas coisas que nos farão felizes e permitirão uma vida cheia de significado positivo, desde que assumamos a responsabilidade de aceitar o nosso «destino», sendo que, por este, não deve entender-se uma  fatalidade totalmente determinada mas uma matriz que pode ser trabalhada e modificada (mas não substituída) pelas nossas escolhas.

Cada um de nós vive pelo menos um retorno de Saturno e, em média, dois retornos de Saturno. Cada um representa uma «onda de  karma» específico do passado que precisamos de compensar para «avançar no caminho da Luz». Não é por acaso que Saturno também se associa à «obra ao negro» dos alquimistas: descobrir a negritude em primeiro lugar para a poder substituir pela pureza do diamante. Este não surge do carvão a não  ser após muito tempo e depois de uma incrível pressão. Connosco as coisas não são muito diferentes. Mas, no final deste «deve e haver», o resultado pode ser compensador.

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