A Carta Divisional D-108 Ashtotaramsa

Rapariga a dançar num jardim

A Carta   divisional D-108 é pouco usada nas análises astrológicas, embora provoque um enorme fascínio pois esta varga, segundo a tradição, indica o «futuro nascimento». O problema é que muito poucas pessoas poderão saber a hora exata ao segundo do seu nascimento, pelo que as conclusões retiradas a partir da análise desta divisional podem ser pura ficção.

Mas não queremos deixar de referir todas as cartas divisionais que podem ser usadas no contexto da Astrologia Jyotish por isso aqui ficam algumas informações para os mais curiosos:

Potencialmente, a divisional D-108 permite prever quando será alcançado o estado de «moksha» ou libertação do ciclo de reincarnações e, presumivelmente, quantas «reincarnações» serão potencialmente necessárias para atingir esse estado de desenvolvimento individual.  É claro que, sendo o indivíduo capaz de fazer escolhas e de, portanto, alterar o seu próprio destino pessoal, parece algo supérfluo estudar esta divisional para prever «quando» e «quantas» reincarnações serão necessárias para isso pelo que o interesse por esta divisional não é tanto o poder «prever» isso,  é satisfazer o desejo de «saber» em que ponto do caminho espiritual se está e isto também talvez não interesse a todas as pessoas, pelo que se justifica o pouco uso desta varga. Além disso, o número de pessoas que estão perto da «iluminação espiritual» não será  muito  grande pelo que se compreende que existam poucas referências dos antigos sábios a esta carta divisional.

De acordo com algumas interpretações que  encontrámos, a divisional D-108 mostra os 3 aspetos do karma: o do passado, o do presente e o resultado disso no futuro. Assim, as primeiras 4 casas desta varga são indicadoras do karma passado que gerou as circunstâncias do presente; as 4 casas seguintes (5ª, 6ª, 7ª, 8ª ) são expressão do karma atual que está ativo nesta vida; as últimas 4 casas, da 9ª à 12ª serão indicativas do karma associado com a vida futura. Mas, como o nosso karma não é algo fixo, altera-se à medida que vamos vivendo e aprendendo, essas casas como indicadoras da vida futura são uma espécie de imagem do que o futuro poderá ser, se não o alteramos pelo uso das nossas escolhas e liberdade pessoal aqui e agora.  Não existe um destino «fatalista» ou totalmente determinado para nenhum ser capaz de decidir e realizar atos livres, como é o caso do ser humano. Desta forma, terá de ser entendido que o «futuro» mostrado é apenas consequências das condições mostradas pelo passado e pelo presente, sem ter em conta que nós podemos, efetivamente, mudá-lo, pelo menos parcialmente.

Alguns astrólogos também fazem uma análise comparativa entre a D-60 e a D 108. Por exemplo, se um planeta estiver mais forte ou mais fraco na D- 60, quando comparado com a sua força na D- 108, isso tem implicações  na interpretação do karma futuro, segundo dizem. Mas, se assim é, acrescentamos, isso não pode ser definido em termos de eventos ou condições fixas indicadas pelos significados dos planetas,  uma vez que isso seria admitir que o futuro está fixado de uma vez por todas, o que, pela nossa experiência prática, não é verdade (a cada momento temos sempre várias opções e escolhemos esta ou aquela, de acordo com o nosso desejo ou «razões»). Mas concordamos em que essa análise pode ajudar a compreender o karma  da vida presente , pelas determinações trazidas do  passado e pelo potencial em relação ao futuro. Mas consideramos duvidoso que  se chegue a algo mais do que meras conjeturas ou «insights» que ,provavelmente, só  o próprio indivíduo poderá perceber, ao fazer esta análise comparativa.

A 12ª casa, pelo significado tradicional de «finalização» e  de passagem é considerada de grande importância na D- 108.  Os planetas colocados nesta casa e nesta divisional , pela sua dignidade e força poderão indicar quando cessará o ciclo de encarnações para um determinado indivíduo.  Segundo  a tradição, o estado de «moksha» será alcançado no final desta vida se o planeta Atmakaraka estiver colocado na 12ª casa dignificado- próprio signo, signo de exaltação ou signo mooltrikona. O sol deverá também estar colocado na 12ª casa desta divisional.   O mesmo sucede se o regente da 12ª casa da D-108 estiver colocado na 12ª casa em conjunto com o planeta Atmakaraka e este estiver forte , não havendo outros aspetos para ambos ou para a 12ª casa e, simultaneamente, o Sol está colocado no próprio signo ou no signo de exaltação. A «moksha» será também alcançada no final desta vida se todos os planetas desta divisional estiverem colocados no próprio signo ou no signo de exaltação.

Para determinar quantas vidas terão de ser vividas antes de atingir o estado de «salvação», faz-se o seguinte segundo estas fontes: se estiverem dois  planetas exaltados ou no próprio signo desta divisional , então, tendo em conta que os planetas são 7 (os nodos ficam de fora)  faltarão 5 existências para «resolver» o karma, antes de poder aspirar à libertação; se houver 4 planetas exaltados ou no próprio signo , então faltarão 3 existências, etc. Se o regente da 12ª casa desta divisional estiver colocado no Ascendente, uma vida será ainda necessária antes de atingir a «salvação». Se estiver colocado na 10ª casa, então, como a partir da 12ª casa, que rege, até à 10ª, são 11 casas, faltam 11  existências para o mesmo efeito.

Note-se que esta abordagem tem bastante de simplista, uma vez que pressupõe que o indivíduo e as suas escolhas ao longo das várias existências não alteram o karma. Ora, isto parece-nos contrário ao próprio espírito da astrologia Jyotish que, como o nome indica, é o «caminho da luz» isto é, o caminho pelo qual o indivíduo vai aumentando a sua «luz» e, simultaneamente, vai mudando o seu próprio destino. Este não é algo fixo de uma vez por todas, é uma «narrativa» que cada um vai construindo e  que, através das escolhas que cada um vai fazendo, vai mudando- tanto para aumentar o seu débito kármico, quando as suas escolhas são destrutivas para si e para o conjunto da vida,  como para o  o reduzir- construindo mais na sua própria vida e no conjunto da vida.

Deste modo, não nos parece que a simples sedução do número da divisional- o místico número 108- seja por si só razão suficiente para pretender dizer a «última palavra» acerca do karma de cada um. A liberdade é real, tão real como as condições que criámos no passado e determinam o nossos presente. É bom lembrar que, de cada vez que tomamos uma decisão e escolhemos um caminho, tornamos flexível outra vez o nosso «destino» e este abre um novo conjunto de possibilidades que não existiam antes de termos tomado essa decisão.

Querer conhecer o nossos futuro é algo que nos conforta, que pode ser realizado com limites através das previsões astrológicas, para a vida atual; querer conhecer o «destino futuro que ainda não nasceu» parece-nos mais  o resultado do nossos desejo de segurança, de  querer que o futuro esteja «assegurado» do que propriamente algo que seja efetivamente possível de fazer pelos meios da Astrologia, seja qual for a escola que esta segue.

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