Glossário Astrológico- Direções Primárias

Portada rodeada de folhagem aberta para o céu

A técnica conhecida por «direções primárias» é muito antiga e reporta-se, como referimos num outro artigo, à astrologia helenística , tendo sido continuada ao longo do tempo, pelos astrólogos árabes, renascentistas e posteriores,  sendo ainda hoje usada na astrologia ocidental.

O nome «primárias» atribuído a esta técnica, pela qual os pontos do horóscopo e os planetas são progredidos, deve o seu nome ao facto de se basear no movimento primário da  Terra, isto é, o movimento de rotação da Terra ao longo de 24 horas, que é a base para o estabelecimento dos períodos «dia/noite».

Quando a Terra assim gira em torno do próprio eixo, parece, ao observador na Terra, que o céu se move, com todos os planetas, estrelas e signos à nossa volta, dando uma volta completa  em torno do Zodíaco. Se permanecêssemos imóveis no nosso ponto de observação veríamos que o Sol e os restantes planetas, bem como todos os graus do Zodíaco, se elevariam na posição Este, culminariam no Sul, (hemisfério norte) , teriam o seu ocaso no oeste e ficariam abaixo do horizonte até, finalmente, voltarem a «nascer» no Este. Como sabemos, o Este corresponde ao Ascendente, o Oeste ao Descendente, o ponto culminante ao Meio do céu e o ponto mais baixo deste movimento total corresponde ao fundo do céu, ou seja, estes quatro pontos  marcam a divisão dos quadrantes do horóscopo, correspondentes à 1ª, 4ª, 7ª e 10ª casas.  Esta descrição é baseada na perspetiva geocêntrica aparente, usada na antiguidade e nos dias de hoje pela astrologia ocidental, que toma como referência o movimento aparente do observador na Terra. Não é a perspetiva seguida pela Astrologia Jyotish, que se baseia no movimento real dos planetas , como temos referido diversas vezes.

Ora, as direções primárias baseiam-se na premissa de que, no seu movimento diurno, a Terra gira á volta dos 360 º do Zodíaco (repare-se na subtileza: a Terra move-se, de facto, mas em torno do seu eixo e, ao rodar em torno do seu eixo, parece que é o céu que se move. Esta é a mesma ilusão que temos quando viajamos num veículo e, ao olhar para fora, a paisagem desliza para trás, dando a impressão de que a paisagem  se move).

Então, as direções primárias baseiam-se neste movimento aparente que os planetas, signos e cada grau do horóscopo têm, em relação ao Ascendente, isto é, ao ponto que estava a erguer-se no Este quando nascemos. Os astrólogos antigos consideravam que, ao moverem-se os planetas e signos em relação ao Ascendente de um nativo e ao «transitarem» pelos pontos sensíveis do horóscopo natal, indicam o momento em que os significados desses planetas, signos e outros pontos (lotes) serão concretizados e se manifestarão na vida real do indivíduo.

Para calcular o «tempo dos eventos» estipula-se que cada grau de um signo corresponde a um ano de vida. Assim, as qualidades de um determinado signo mantêm-se ativas durante trinta anos. Note-se que, no movimento da eclítica, o zodíaco desloca-se a uma velocidade de um grau em cada 4 minutos. Ao estudar os movimentos dos planetas e signos que se erguem nas 6  horas a seguir ao nascimento ( um signo leva 2 horas a elevar-se, embora não seja assim em todos os casos, como referimos em outros artigos pois há signos de Ascensão curta e outros de ascensão longa) mas, no geral, duas horas correspondem a 30 anos. Deste modo, 6 horas após o nascimento correspondem a uma longevidade de 90 anos. Esta correspondência entre os graus e anos permite também prever a idade em que o significado de um planeta se fará sentir na vida do indivíduo:

Por exemplo, um planeta que se ergue no horizonte 16 minutos após o nascimento (ou seja, que atravessa o grau do Ascendente nesse período de tempo) manifestará os seus efeitos aos 4 anos de idade do indivíduo. A leitura do «modo» como o planeta influenciará a vida do indivíduo depende do que esse planeta significa na carta natal, bem como dos seus significados naturais.

Deste modo, é preciso conhecer a carta natal e avaliar as promessas natais antes de poder tirar partido das direções, sejam estas primárias ou outras.

Na interpretação dos efeitos dos planetas, quando são progredidos até certos pontos do horóscopo tem-se ainda em mente a «natureza» dos planetas, numa abordagem que é menos dinâmica do que a utilizada pela Astrologia Jyotish que, para além da «natureza» geral de um planeta, considera ainda a sua «natureza funcional» que muda para cada signo Ascendente. Este é um dos pontos fortes da astrologia Jyotish.

A astrologia tradicional ocidental também considera que a regência e colocação de um planeta tem importância mas  tende a ver  a energia do planeta  nas diferentes casas como algo constante, não sendo mudada   essa  «natureza» (embora também na astrologia ocidental nem todos os  praticantes concordem com isto)  e vendo as casas como as «áreas» em que a energia do planeta se vai manifestar . Assim, um planeta de natureza maléfica, como Saturno ou Marte são vistos como dando sempre resultados negativos, o que a Astrologia Jyotish desmente, pois prevalece na sua abordagem a relação do planeta com as casas que rege : por ex., Saturno é considerado um planeta benéfico para os Ascendentes Touro e Balança e Marte é benéfico para os Ascendentes Caranguejo, Leão, Sagitário, etc.  Do mesmo modo, planetas de natureza benéfica como Vénus são considerados maléficos funcionais para  os Ascendentes Virgem ou Peixes, por ex. Assim, a visão mais dinâmica da natureza dos planetas aceite pela Astrologia Jyotish parece-nos mais produtiva.

 E a colocação  dos planetas nas casas também altera a energia do planeta. Deste modo, a interpretação das interações criadas num horóscopo pelas energias dos planetas é bastante complexa mas, a nosso ver, a que é proposta pela Astrologia Jyotish, é deveras mais consentânea com o próprio conceito de «energia» : a colocação de um planeta num determinado signo ou casa, em aspeto com determinado planeta, etc., altera a sua energia própria modificando aspetos da sua «natureza» e isso obriga a  uma análise  complexa e dinâmica do mapa natal. Note-se que esta discussão também remete para o conceito de «casa» do horóscopo: por ex., como publicámos recentemente, o sistema de Porfírio usa a noção de espaço ou lugar para definir as casas enquanto Placidus usa a relação entre o espaço e o tempo. Esta é uma discussão que não está terminada e cada um deve usar os conceitos com que mais se identifica e observar os resultados.

Mas voltando aos aspetos em discussão, a interpretação dos efeitos dos planetas  progredidos no mapa natal (ou outros pontos do horóscopo, incluindo os meridianos) não deve esquecer que  o foco deverá ser nos significados de que o planeta é karaka (os tais que estão associados à sua natureza) mas também aos que resultam das casas que rege e da casa em que está colocado.

Segundo a abordagem tradicional do uso das direções primárias, se o planeta que rege a 7ª casa, respeitante ao  casamento, atravessou o Ascendente do nativo 85 minutos depois deste nascer, podemos calcular que, por volta dos 21 anos (cada 4 minutos corresponde a um grau que é igual a um ano) o nativo entrará numa parceria significativa que pode ser um casamento ou outro tipo de parceria, que teria de ser lido de acordo com outros elementos da carta natal, incluindo a  relação deste planeta com o planeta chronocrator (considerado nos tempos antigos) que domina o horóscopo. Na astrologia Jyotish teríamos de ter em conta o período dasa ativo.

 Houve ,no entanto, várias maneiras de considerar  esta questão, mesmo no passado, tendo havido várias formas de calcular o planeta moderator ou significator  que era visto como o planeta significador de uma dada área de vida. Estes planetas eram também designados por «hyleg» : estes correspondiam  aos  seguintes pontos do horóscopo :Ascendente, Meio do Céu; o Sol, a Lua, a Parte da Fortuna. Para os autores antigos era aceite pela maioria que se podiam prever todos os acontecimentos da vida pelas direções primárias para estes pontos Hyleg. Astrólogos importantes como William Lilly na Renascença, usavam  não apenas estes 4 pontos mas os todos os planetas.

Os hyleg eram considerados os pontos passivos do horóscopo, eram aqueles para os quais ia ser feita a direção ou progressão. O elemento dinâmico era designado por Promissor , havendo diversas formas de o calcular.

Os astrólogos atuais  usam  em geral uma abordagem simplificada na qual medem, por ex., a distância entre um planeta natal e o momento em que ele ficará em conjunção com o planeta progredido. A maioria prefere usar outro tipo de progressões, como as secundárias, associadas a outras técnicas de previsão, como os trânsitos dos planetas sobre os pontos do horóscopo. Mas continua a haver um número significativo de astrólogos que usam igualmente as direções primárias.

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2 Thoughts to “Glossário Astrológico- Direções Primárias”

  1. Antonion Ferraz

    Quero agradecer à equipe do aprendizado de astrologia pelo conhecimento compartilhado. Tenho estudado meu Mapa védico e o mapa dos parentes e amigos e isto ajudou muito para eu compreender o modo de ser da cada pessoa e respeitar cada um do modo como é. Infinitamente grato!!!!!!

    1. astrologoaprendiz1

      Agradecemos o seu feedback, saber que as nossas publicações são úteis para quem nos lê é a máxima recompensa que podemos alcançar.

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