Prashna Marga – Introdução

 

Capa do livro Prashna Marga

Começamos neste artigo a  explicitar para os leitores o conteúdo da   obra de referência da astrologia Prashna ou horária, segundo a tradição da Índia, Prashna Marga.  Esta obra foi traduzida do sânscrito  em 1980/81- o primeiro volume- por uma autoridade na língua e supervisionada e interpretada pelo Dr. B. Raman, e o segundo volume foi traduzido pelo próprio Dr. B. V. Raman.

Esta é uma obra  que ultrapassa os princípios fundamentais da astrologia Prashna para, como adverte o autor da tradução, é também essencial para compreender melhor e aprofundar todas as técnicas astrológicas e não apenas as da  astrologia horária.

Trata-se de uma obra volumosa que damos a conhecer com alegria aos nosso leitores. Em breve, no nosso site A tua vida nos Astros, iremos também comentar uma das obras mais importantes da Astrologia ocidental – e também a base da astrologia horária no ocidente- a obra Christian Astrology de William Lilly, um célebre astrólogo do séc. 17.

Um paralelo importante em relação a estas obras fundamentais é que cada uma delas é um tratado completo das técnicas astrológicas e, por isso, ultrapassa a Astrologia Horária, fornecendo um completo conjunto de técnicas para a interpretação astrológica.

Uma outra particularidade interessante em relação a estas duas obras é que foram escritas no mesmo  século- século 17-  ainda que em duas culturas distintas e em diferentes lugares do mundo.

Prashna Marga tem autoria de Namboodiri Brahmin de Kerala, e a obra foi usada amplamente na região onde foi publicada em 1649, junto a Talasseri.

Esta obra surgiu como um comentário destinado aos estudantes de astrologia, abrangendo todos os temas fundamentais da astrologia  de previsão, ainda que  destinado em primero lugar à astrologia prashna ou horária.

De acordo com o Dr Raman, esta é, por isso, uma obra que ajuda todos os estudantes de astrologia Jyotish. Abrangendo todas as áreas que esta abarca e os seus métodos  de previsão.

Esta obra  foca também aspetos que ultrapassam  a astrologia, como os relacionados aos rituais espirituais e uso de mantras ou de «remédios» para usar em certas situações. Isto sucede porque, na índia, a Astrologia nasceu como um «caminho espiritual» e mesmo parte da religião.

A obra mostra, assim,  como o seu autor a incluía numa abordagem espiritual da vida, afirmando, por ex., que o dia do astrólogo deve começar por  uma prece  «Peço ao Deus Vishnu que a minha mente possa ser  iluminada, completa e perfeita». Todo o autor começava por fazer uma prece antes de iniciar a escrita.

A propósito, lembramos que a designação da astrologia como «Jyotish» significa «ciência (ou saber) da Luz». Na índia existe a convicção muito antiga de que o simples estudo das técnicas não faz um bom astrólogo.

Este precisa também de ajuda superior para fazer previsões corretas, o poder que é designado por Vaksiddhi e é conferido por «graça divina».

Seguiremos nestes artigos a mesma ordem da obra, começando pelo volume 1 e desde o início, respeitando a coerência lógica da organização do texto.

Seis Ramos na Astrologia Jyotish

A astrologia Jyotish ou «ciência da Luz» está dividida em seis ramos, com autonomia mas também interligados. Era considerado que o astrólogo que dominasse estes seis ramos nunca se enganaria nas suas previsões. Estes ramos são: Jataka, Gola, Nimita, Prashna, Muhurtha e Ganita.

Alguns destes ramos lidam com a «luz exterior» enquanto outros lidam com a «luz interior». Expliquemos o significado de cada um:

Gola– Lida com a observação astronómica. Lembremos que a Astrologia nasceu em conexão estreita com a Astronomia e que os astrólogos anteriores ao século XX tinham de saber calcular a posição e velocidade dos planetas, a constelação em que estes estavam posicionados num dado momento e por quanto tempo, o seu brilho, o movimento orbital dos planetas e muitos outros elementos, como por ex., os eclipses.

Deste modo este ramo é puramente  científico, não sendo hoje obrigatório para quem aprende astrologia devido á existência de software que faz  todos os cálculos necessários.

Ganita- este é o ramo que também é inseparável de conhecimento científico- Matemática mais precisamente- e, para fazer todos os cálculos necessários, na astrologia Jyotish, era preciso fazer complexos  cálculos. Matemáticos.

Note-se que falamos usando o tempo verbal no pretérito porque, para alegria e alívio de muitos estudantes de astrologia, mais uma vez, ao contrário do que aconteceu no passado, hoje podemos deixar a parte dos cálculos para o software , ficando assim libertos para   o estudo das técnicas de interpretação.

Ganita é inseparável de Gola, pois a Matemática é o meio de cálculo dos elementos astronómicos abordados em Gola. Os grandes astrólogos do passado eram brilhantes matemáticos  e astrónomos. É este ramo que produz as Efemérides e o Panchanga.

Jataka- é o ramo de astrologia natal e desenvolve-se combinando   a «luz externa» e a «luz interna» pois precisa de recorrer aos dois ramos anteriores que lidam com a «luz externa».

Assim, precisamos de calcular a carta natal de acordo com data e  lugar (luz externa) e depois precisamos de examinar as áreas de vida nas quais o karma é fixo, discernindo outras nas quais podem ser feitas mudanças pelo indivíduo.

A Jataka é, deste modo, um ramo em que o astrólogo aprende a ver o tempo no qual podemos exercer influência com as nossas escolhas para mudar a nossa vida  e o momento em que devemos focar-nos em certas áreas de vida com particular significado no desenvolvimento espiritual de cada um.

Jataka tem também por tarefa «medir o karma» com que o indivíduo nasceu e mostrar as áreas em que este se irá revelar,  acompanhando o indivíduo ao longo da vida.

Jataka é o ramo astrológico mais comum em todos os países, na época atual, devido ao contexto cultural que coloca a tónica no indivíduo.

Prashna-  Prashna significa «questão»  e baseia-se na formulação de uma questão considerando-se que o momento em que a questão surge é semelhante ao momento de nascimento de alguém, levantando-se por isso a carta para esse momento e lugar. A natureza da questão orienta o astrólogo para definir a casa da matéria da questão e os planetas significadores da mesma.

Prashna usa aspetos que são comuns a Jataka mas tem também as suas próprias regras. Através deste ramo é possível ao astrólogo treinado ver como a pessoa tem usado a sua liberdade para mudar o karma com que nasceu.

Prashna pode ser usada com frequência sem ser necessário usar a carta natal. Esta é uma vantagem, pois as pessoas que não conhecem a hora de nascimento podem, caso a carta prashna seja feita com base numa questão cuja importância é real e seja lida por quem tem treino adequado, as previsões são bastante rigorosas.

Muhurtha–  «muhurtha» significa «momento» e, como o nome indica, trata-se de escolher «o momento mais propício» para realizar algo importante. Este é o ramo que corresponde, no ocidente, à astrologia eletiva. Este ramo usa, desta forma, um critério que é o de, ativamente, escolher o momento melhor para «ajudar» as nossas configurações natais a produzir os melhores efeitos possíveis.

Normalmente, a consulta muhurtha é hoje usada para escolher a data de casamento, compra de uma nova casa, lançamento de um negócio, ter um filho, começar uma nova viagem, mudar de casa, começar um tratamento médico decisivo, etc.

O princípio que está na base de Muhurtha é : a partir do nossos karma, usar a liberdade para conseguir o melhor resultado tendo em conta as nossas condicionantes e possibilidades, melhorando, desta forma, as nossas vidas.[1]

Nimitta- o último ramo da astrologia refere-se à arte de ler os «sinais» ou símbolos que surgem durante a colocação de uma questão  e orientam o astrólogo para a resposta correta, desde que este saiba ler esses sinais.

Estes aparecem como fenómenos naturais  mas relevam para o plano espiritual e ligam-se a uma conceção «mágica» da Natureza, em que esta é vista simbolicamente como um portal para o plano espiritual e subtil.

Podemos também chamar a este ramo o ramo da «intuição», da abertura do astrólogo para a raiz mais funda de si próprio que lhe permite, muitas vezes, encontrar uma resposta cuja origem ultrapassa o raciocínio e através da qual este  confirma uma certa previsão com base nesse reconhecimento simbólico interior que o preenche e lhe permite dar uma resposta mais viável do que a mera interpretação racional.

Para os antigos, isto era feito observando a realidade natural à sua volta mas, na nossa opinião, pode ser feito, por alguns, de forma mais produtiva «olhando para dentro» e intuindo um significado mais profundo sobre a matéria abordada. O «insight» pode ser mais poderoso do que a visão do olho externo.

 

 

[1] Iniciaremos no futuro a análise deste ramo da Astrologia a partir da obra de B. V. Raman Muhurtha.

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